A Era Competitiva Moderna (Anos 2000–presente)
OS IRMÃOS MENDES E O JOGO COMPETITIVO MODERNO
Entre 2007 e 2015, Rafael e Guilherme Mendes fizeram com o BJJ competitivo o que nenhum par de competidores tinha feito desde os irmãos Gracie setenta anos antes: redefiniram como o jogo se parecia no nível mais alto. Seu desenvolvimento do berimbolo, da passagem leg drag e uma série de inovações técnicas dentro das divisões de leves reformularam não apenas as técnicas usadas nos Mundiais da IBJJF mas toda a orientação pedagógica das academias de jiu jitsu competitivo do mundo.
Rafael Mendes e seu irmão mais velho Guilherme nasceram em São Paulo e começaram a treinar ainda crianças na academia de seu pai, Ramon Lemos. Quando chegaram ao faixa-preta — Rafael em 2008, Guilherme em 2007 — já tinham acumulado dezenas de vitórias em torneios importantes como faixas inferiores e eram conhecidos dentro da cena competitiva brasileira como os leves tecnicamente mais preparados de sua geração. O que fizeram no faixa-preta nos oito anos seguintes mudaria o jiu jitsu competitivo permanentemente.
As inovações começaram com o berimbolo. No final dos anos 2000 os irmãos Mendes e seu grupo de treinamento na academia de Ramon Lemos em São Paulo (que mais tarde se tornaria o time Atos) desenvolveram e refinaram a tomada de costas invertida da guarda De La Riva que ficou conhecida como berimbolo. A técnica era tão incomum visualmente — o lutador de baixo rolando por baixo da perna do adversário em pé para emergir nas suas costas — que observadores iniciais a descartaram como curiosidade. Em 2012, depois de Rafael ter usado para vencer três Mundiais consecutivos da IBJJF, havia se tornado a técnica mais copiada das divisões de leves globalmente.
A segunda grande inovação foi a passagem leg drag, refinada pelos irmãos Mendes como contra natural ao berimbolo e a qualquer guarda cujo lutador de baixo dependesse de ganchos por baixo da perna oposta do adversário. A técnica puxa a perna próxima do adversário pela linha central enquanto prende o quadril oposto, removendo o ângulo de que o lutador de baixo precisa para qualquer das raspagens modernas de guarda aberta. Combinada com o joelho cortado e a toreando, a leg drag completou o sistema de três pilares de passagem por pressão que definiu a passagem de alto nível ao longo dos anos 2010.
A terceira inovação foi menos uma técnica do que uma abordagem à pedagogia. Os irmãos Mendes e o time Atos treinavam num nível de precisão técnica e intensidade competitiva que não havia sido visto antes no BJJ. Sessões diárias envolviam centenas de repetições de posições isoladas, revisão em vídeo de toda luta de competição, e um foco sistemático em força de pegada e condicionamento que importava elementos do wrestling e do levantamento de peso olímpico. Os resultados competitivos — múltiplos Mundiais da IBJJF, títulos do ADCC e dominância nos Pan-Americanos e Europeus — estabeleceram a metodologia como o novo padrão.
A consequência mais ampla da era Mendes foi a codificação do BJJ competitivo como disciplina discreta distinta das tradições de defesa pessoal e vale-tudo que o precederam. Quando Rafael Mendes se aposentou da competição ativa nos meados dos anos 2010, o intervalo entre jiu jitsu de competição e jiu jitsu de defesa pessoal havia se alargado a ponto de muitos competidores de alto nível nunca terem que aplicar suas técnicas numa altercação real, e muitos praticantes de defesa pessoal nunca terem que aplicar as suas em competição. A divisão sempre foi implícita na história da arte, mas a campanha competitiva dos irmãos Mendes foi o período em que se tornou explícita e estrutural.
Os irmãos fundaram a Art of Jiu Jitsu Academy em Costa Mesa, Califórnia, em 2015, onde continuam treinando um programa de competição que produziu múltiplos campeões mundiais — mais notavelmente Tainan Dalpra e Mica Galvao, cujas campanhas competitivas dos anos 2020 se constroem diretamente sobre a fundação técnica e pedagógica que os irmãos Mendes estabeleceram. As divisões de leves e médios do Mundial IBJJF na era moderna são, em termos técnicos, descendentes de duas décadas de inovação Mendes.